Equidade Global em Anestesia: A Voz de Camarões para o Mundo
Em dezembro de 2025, o Dr. Tobi Olaiya, anestesiologista e profissional de saúde pública atuando em Camarões, publicou no Global Health Otherwise um artigo que sacudiu a comunidade internacional de anestesiologia: "Reimagining Global Anesthesia Equity".
O texto é uma reflexão pessoal e sistêmica sobre a realidade de praticar anestesia em um país onde há apenas 0,1 anestesiologistas médicos por 100.000 habitantes — o equivalente a um especialista para cada um milhão de pessoas.
A Realidade dos Números
Os dados são impactantes. O WFSA Global Workforce Survey 2025 confirma:
| Região | PAPs/100.000 hab. | NPAPs/100.000 hab. ||--------|------------------|-------------------|| África (média regional) | 0,6 | 1,4 || Camarões | 0,10 | — || Brasil | ~5,6 | — || EUA | ~18 | — || Mínimo recomendado (WFSA) | 5 | — |
PAPs = Physician Anesthesia Providers (médicos anestesiologistas); NPAPs = Non-Physician Anesthesia Providers
"Esta escassez determina quem recebe cirurgia segura, quando e com qual risco, e representa uma barreira estrutural à cobertura universal de saúde identificada pela Comissão Lancet sobre Cirurgia Global." — Dr. Tobi Olaiya
A Experiência Pessoal: Entre Dois Mundos
O Dr. Olaiya descreve a contradição que viveu durante sua formação em Israel e sua participação no ASA Global Scholars Program nos Estados Unidos:
"Eu vi o que sistemas de anestesia bem equipados podiam alcançar. Medicamentos como o Sugammadex, que reverte o bloqueio neuromuscular em minutos, eram estocados em abundância. Em contraste, na minha prática atual, nossa equipe uma vez realizou uma laparotomia de emergência para um paciente com trauma e não conseguiu extubá-lo imediatamente porque o agente reversor estava em falta — uma interrupção da cadeia de suprimentos agravada pela ausência de um monitor quantitativo de bloqueio neuromuscular."
Essa experiência, ele afirma, cristalizou uma verdade: equidade em saúde não é apenas sobre acesso ao cuidado, mas sobre acesso à qualidade e à segurança.
Inovações Nascidas da Necessidade
Paradoxalmente, as restrições extremas do sistema de saúde de Camarões geraram inovações contextuais notáveis:
"Construir sistemas sustentáveis de anestesia requer investir em pessoas tanto quanto em equipamentos." — Dr. Tobi Olaiya
O Desafio da Representação nas Políticas Globais
Uma crítica central do artigo é a exclusão sistemática de provedores de anestesia de países de baixa e média renda das mesas de políticas globais:
"Com muita frequência, provedores de anestesia de países de baixa e média renda são excluídos das mesas de políticas — uma omissão sistêmica que contribui diretamente para a persistência de taxas inaceitavelmente altas de mortalidade perioperatória em suas regiões."
O Novo Modelo Proposto: Troca Mútua de Expertise
O Dr. Olaiya propõe que a saúde global evolua além do binário doador-receptor para um modelo de troca mútua de expertise:
"As lições aprendidas com a otimização da entrega de anestesia em Yaoundé ou Bamenda são tão valiosas quanto os avanços tecnológicos desenvolvidos em Boston ou Jerusalém. O futuro da saúde global depende de reconhecer que a inovação flui em todas as direções e que os clínicos da linha de frente em ambientes de recursos limitados não são apenas implementadores, mas produtores ativos de conhecimento que podem remodelar o campo."
Reflexões para o Brasil
O Brasil ocupa uma posição única nesse espectro: é simultaneamente um país de média-alta renda com desafios de equidade interna significativos. A densidade de anestesiologistas no Norte e Nordeste brasileiro se aproxima mais da realidade africana do que da realidade do Sudeste.
A SBA tem trabalhado para endereçar essa desigualdade, mas o artigo do Dr. Olaiya nos lembra que equidade em anestesia é um imperativo ético, não apenas uma meta de política de saúde.
Fonte: Olaiya T. "Reimagining Global Anesthesia Equity – Opinion from a Cameroonian Clinician-Scholar." Global Health Otherwise. 13 de dezembro de 2025. Disponível em: globalhealthotherwise.com