A Sociedade Europeia de Anestesiologia e Terapia Intensiva (ESAIC), em conjunto com a Sociedade Europeia de Anestesia Pediátrica (ESPA), o Grupo de Trabalho Mitocondrial da Rede de Referência Europeia (ERN) EURO-NMD e a Sociedade Europeia Mitocondrial (E-MIT), emitiram uma declaração conjunta de grande importância para a prática anestesiológica global, e particularmente relevante para o cenário brasileiro.
Comunicações recentes de importantes sociedades de anestesiologia têm destacado a necessidade de atenção especial ao risco farmacogenético mitocondrial relacionado à anestesia em indivíduos com ascendência materna venezuelana. Este alerta surge da observação de que certas variantes genéticas mitocondriais, prevalentes em populações específicas da Venezuela, podem predispor os pacientes a reações adversas graves a agentes anestésicos comumente utilizados.
Para o anestesiologista brasileiro, esta informação é crucial. O Brasil tem recebido um fluxo significativo de migrantes e refugiados venezuelanos nos últimos anos, especialmente em estados da região Norte, como Roraima e Amazonas, mas com dispersão para outras regiões do país. Consequentemente, a probabilidade de encontrar pacientes com esta ascendência genética em qualquer serviço de anestesia no Brasil é cada vez maior.
O risco farmacogenético mitocondrial implica que a resposta de um paciente a determinados medicamentos anestésicos pode ser alterada devido a variações em seu DNA mitocondrial. Tais alterações podem levar a disfunções mitocondriais agudas, resultando em complicações perioperatórias como acidose lática, rabdomiólise, insuficiência orgânica e, em casos graves, óbito. Agentes como propofol, óxido nitroso, succinilcolina e alguns agentes voláteis são conhecidos por potencialmente exacerbar disfunções mitocondriais em pacientes suscetíveis.
É imperativo que os anestesiologistas brasileiros estejam cientes dessa especificidade. A anamnese pré-operatória deve incluir questionamentos sobre a origem geográfica e a ascendência familiar, especialmente a materna, para identificar pacientes em risco. Embora a testagem genética pré-operatória para estas variantes específicas ainda não seja rotina, o conhecimento da ascendência pode guiar a escolha de agentes anestésicos considerados mais seguros para pacientes com suspeita de risco mitocondrial.
Esta declaração conjunta serve como um lembrete da importância da medicina personalizada e da vigilância contínua na prática anestesiológica. A adaptação dos protocolos anestésicos para incluir a consideração de fatores genéticos e étnicos é um passo fundamental para garantir a segurança e otimizar os resultados para todos os pacientes, especialmente aqueles de populações com riscos específicos.
Fonte: ESAIC - European Society of Anaesthesiology and Intensive Care
